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PELAS MADRUGADAS DO RIO

Por Roberto Carelli

 

Madrugada em Copacabana - foto: Roberto CarelliPodem dizer o que for do Rio de Janeiro, mas não há nada comparável a andar de madrugada pelas ruas de Copacabana, Ipanema, Botafogo, Leblon, sentindo aquele cheiro gelado da maresia, ouvir de longe o barulho das ondas fortes arrebentando no imenso areal branco, e vagar pelas avenidas vazias apenas vendo as luzes e sombras noturnas da rua, dos faróis de carros ao longe emitindo raios coloridos como estrelas longínquas de uma galáxia distante e inatingível. 

É nas madrugadas dessas avenidas que sinto toda magia da noite, com sua paz, seus enigmas, perigos e sensações... Sensações que só a noite pode oferecer.

A população da noite é bem diferente da diurna em Copacabana. Pequenos grupos de rapaziada semi-bêbada aqui e ali fazem aquela costumeira algazarra. Uma prostituta passa de mãos dadas com seu cliente duas ou tres vezes mais velho que ela, em direção ao motel, cochichando no ouvido dele palavras em tom que promete amor eterno, que de fato acabará daqui a duas horas. Um bêbado passa cambaleando, vai para ninguem sabe onde. 

Um garçon e um guarda jogam conversa fora enquanto o ultimo bar do quarteirão vai fechando, e os derrareiros boemios se despedindo com abraços cambaleantes e palavras desconexas depois de tantos e tantos copos de chopp. 

O segurança - um senhor negro com uniforme de guarda - fica horas e horas sentado na mesma posição, apenas analisando e observando, espantosamente impassível como se fosse uma entidade acima dos acontecimentos terrenos e das mesquinharias e emoções humanas. 

A madrugada é sono, bebida, festa ou promessa de sexo para a maioria, ainda mais em uma cidade que transpira sexo como o Rio, nas palavras subentendidas por trás daquele sotaque chiado dos cariocas, nos gingados que parecem ir mas ao mesmo tempo parecem querer ficar, na tensão eternamente reinante no violento choque de olhares casuais. 

Mas lá estão aqueles batalhadores já começando a trabalhar as 4 horas da manhã, carregando pilhas pesadissimas de jornais e levando para as bancas. Riem e brincam enquanto repetem a rotina diária de separar e contar jornais. Lixeiros vem cantando e brincando em um caminhão para recolher os sacos pretos de plástico cheios de lixo dos prédios. Parece que estão fazendo a coisa mais prazeirosa e divertida do mundo. O cheiro do lixo? Para eles deve ser uma diversão a mais. 

Não são ricos com certeza, mas inexplicavelmente parecem mais felizes que muita pessoas ricas e famosas que moram em uma cobertura na Zona Sul, que andam sempre sisudas e esquivas na rua, ou então nem andam na rua, pois tem motorista particular e empregadas para fazerem compras, assim podem evitar ao máximo o contato humano fora da classe social a que pertencem. 

Felicidade expontânea, como essa dos carregadores de jornais e lixeiros, muitas vezes só encontrei em pessoas pobres, que vivem nessa rotina modesta e sacrificada que travam todo dia. Felicidade que nenhum dinheiro do mundo pode comprar. 

Lá no céu, daqui a pouco começará a despontar aquele clarão azul escuro que pouco a pouco anuncia um novo dia, e que trará mais um capítulo da nossa vida. Longa vida, como essa avenida iluminada e vazia, que parece sem fim. 

Mesmo que sabemos que o fim está lá na frente. Não podemos vê-lo, mas sabemos que está lá.
Então continuamos a andar, a andar sempre para frente, enquanto essa longa avenida continua nos seduzindo com suas luzes e sombras fascinantes.

 

(crônica de Roberto Carelli)

 

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